Nosso site utiliza cookies para melhorar e personalizar sua experiência e para exibir anúncios (se houver). Nosso site também pode incluir cookies de terceiros, como Google Adsense, Google Analytics e YouTube. Ao utilizar o site, você concorda com o uso de cookies. Atualizamos nossa Política de Privacidade. Clique no botão para consultar nossa Política de Privacidade.

Trump derruba Maduro, garante o petróleo e deixa a Venezuela nas mãos do chavismo reciclado

Pragmatismo americano expõe que a “libertação” tinha preço — e ele atende aos interesses energéticos de Washington, não à democracia.

A operação que resultou na captura de Nicolás Maduro foi apresentada como um golpe histórico contra a ditadura chavista. Mas, passadas as primeiras horas de euforia, o cenário que se desenha revela algo bem menos nobre: Donald Trump parece já ter obtido exatamente o que buscava — o controle estratégico sobre o petróleo venezuelano — e agora administra o país sob uma lógica fria, pragmática e essencialmente transacional.. A captura de Nicolás Maduro pelas forças americanas foi celebrada por setores que enxergaram no gesto um possível ponto final em mais de duas décadas de autoritarismo chavista. No entanto, a escolha de Delcy Rodríguez como presidente interina da Venezuela levanta uma pergunta incômoda — e inevitável: o chavismo caiu ou apenas trocou de rosto?

A nomeação de Delcy Rodríguez como presidente interina não representa ruptura, muito menos libertação. Representa continuidade negociada. O chavismo não foi desmontado; foi reorganizado para servir a novos interesses, agora sob supervisão direta dos Estados Unidos. Delcy não é uma figura externa ao regime. Ao contrário. Trata-se de uma das peças mais orgânicas, ideológicas e longevas do sistema chavista, agora alçada ao poder sob a justificativa de ser “mais pragmática”, “mais flexível” e “mais confiável” para negociar com Washington. O argumento, vazado à imprensa americana por fontes anônimas, soa menos como transição democrática e mais como gestão controlada de um regime falido.

Trump não escolheu Delcy por convicção democrática. Escolheu porque, segundo fontes que circularam na imprensa americana, ela oferece garantias claras de proteção aos investimentos energéticos dos EUA, respeita acordos, fala a linguagem do mercado e aceita negociar ativos estratégicos. Filha de um guerrilheiro marxista envolvido em sequestro de um empresário americano, Delcy construiu sua carreira dentro do núcleo duro do chavismo. Ocupou cargos estratégicos, comandou áreas sensíveis do Estado, esteve à frente da política externa, da economia e do setor petrolífero — justamente o coração do poder venezuelano. Nada nela indica ruptura. Tudo indica continuidade com maquiagem tecnocrática. Em termos práticos: o petróleo venezuelano voltou à mesa — e isso bastou.

A lógica do negócio acima da ideologia

A retórica de enfrentamento ao socialismo bolivariano cedeu rapidamente espaço à velha política externa americana: derruba-se o líder incômodo, preserva-se o sistema funcional e garante-se acesso aos recursos naturais. Maduro caiu não por ser ditador, mas por ter se tornado um obstáculo. O que teria agradado o governo Trump não foi uma guinada democrática, mas a disposição de Delcy em dialogar com elites econômicas, investidores estrangeiros e interesses energéticos, especialmente ligados ao petróleo. Em outras palavras: Maduro caiu não por ser autoritário, mas por ser inconveniente.

Delcy Rodríguez, apesar de sua trajetória profundamente ligada ao chavismo, à repressão política e às sanções internacionais, passou a ser vista como “administrável”. Uma comunista confiável. Uma ideóloga com verniz técnico. Uma peça aceitável para manter o fluxo do petróleo funcionando. É aqui que a contradição salta aos olhos: enquanto Trump discursa sobre liberdade, os bastidores indicam que a prioridade nunca foi a democracia venezuelana, mas sim a segurança energética americana. A fala do próprio presidente dos EUA, ao afirmar que pretende “governar” a Venezuela por tempo indefinido, “o petróleo é nosso” deixa claro que se trata de tutela estratégica, não de emancipação nacional.

Chavismo útil é chavismo tolerável

Delcy foi peça-chave na reorganização econômica que deu ao regime chavista uma aparência de estabilidade após anos de colapso. Privatizações seletivas, diálogo com empresários e disciplina fiscal mínima, não foram gestos de conversão ideológica, mas estratégias de sobrevivência do regime. Agora, esse mesmo modelo interessa a Washington. Um chavismo domesticado, sem discurso antiamericano, disposto a abrir o setor petrolífero e manter a ordem interna, serve melhor aos interesses dos EUA do que um ditador folclórico e imprevisível.

Isso explica o paradoxo atual: Delcy condena publicamente a operação americana, reafirma lealdade a Maduro, mas mantém canais ativos com Washington e aceita assumir o poder interinamente. É o chavismo tentando sobreviver por adaptação, não por arrependimento. Um jogo duplo tolerado porque é funcional.

A lógica é clara — e perigosa. Washington parece apostar que um chavismo mais “civilizado”, com discurso moderno e verniz técnico, seja mais funcional do que um ditador folclórico que dança em rede nacional enquanto desafia os Estados Unidos.

Sanções, repressão e oportunismo político

Não se trata de uma figura moderada injustiçada. Delcy Rodríguez foi alvo de sanções dos Estados Unidos, do Canadá e da União Europeia por seu papel direto na repressão política e no sufocamento de liberdades civis. Participou ativamente de um governo responsável por colapso econômico, êxodo em massa e perseguição sistemática a opositores.

A tentativa de vendê-la como “ponte para a estabilidade” ignora o fato óbvio: ela é parte do problema, não da solução. O chavismo não caiu por dentro; foi removido à força por fora. E agora tenta se reorganizar usando uma figura mais palatável ao mercado, mas igualmente comprometida com o projeto de poder.

Direita não pode confundir pragmatismo com vitória

Para uma direita que defende soberania, liberdade real e ruptura com regimes autoritários, o alerta é claro: não basta derrubar um ditador se o sistema que o sustenta permanece intacto e agora opera a serviço de outro poder. Trocar Maduro por Delcy pode satisfazer interesses imediatos, mas não resolve a raiz do problema venezuelano — apenas o administra. Continua as ameaças, perseguições ao setor da imprensa, aos que descordam da tirania do Chavismo simplesmente desaparecem, além da continuidade dos problemas econômicos de sempre, onde a população desfavorecida continua pagando o absurdo para sobreviver em um pais colapsado ou então foge para países vizinhos como já vem acontecendo em grande escala migratória, como por exemplo, para o Brasil.

A queda de Maduro poderia ter sido o início de uma reconstrução democrática. No entanto, tudo indica que se transformou em uma operação de engenharia geopolítica, onde o prêmio não foi a liberdade do povo venezuelano, mas o acesso garantido às maiores reservas de petróleo do mundo. A Venezuela precisa de ruptura real, eleições livres, fim do chavismo e reconstrução institucional. Qualquer coisa diferente disso é apenas uma transição controlada para manter o poder nas mãos dos mesmos de sempre, com aval externo e discurso conveniente.

Trump pode ter vencido no tabuleiro estratégico. Mas a Venezuela segue sem eleições livres, sem ruptura institucional e sob o comando de uma figura profundamente ligada ao regime que destruiu o país.

No fim das contas, Washington ganhou o que queria. A pergunta que permanece é outra: o povo venezuelano ganhou alguma coisa?

By Nelson Costa

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You May Also Like