
A cidade de Japeri volta ao centro das atenções, por causa de um escândalo que mistura política, saúde pública e suspeitas graves de má gestão do dinheiro do contribuinte. Desta vez, não se trata apenas de denúncias isoladas, mas de um relatório robusto produzido por uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara Municipal, que aponta um possível esquema de desvio milionário e pede a cassação da prefeita Fernanda Ontiveros (PT).
O documento é contundente: são R$ 143,8 milhões sob suspeita, vinculados a um contrato firmado com o Centro Médico de Especialidades e Serviços de Saúde (Cempes), organização social responsável por gerir unidades e profissionais da rede municipal. Para os vereadores que integraram a CPI, os indícios vão além de irregularidades administrativas — apontam para um modelo que pode ter sido utilizado para drenar recursos públicos enquanto a população enfrenta um sistema de saúde precário.
Entre as 26 irregularidades listadas, há situações que beiram o absurdo: médicos com jornadas incompatíveis com a realidade e folhas de ponto assinadas antes mesmo do fim do mês. Em alguns casos, profissionais apareciam com até 480 horas mensais distribuídas em diferentes unidades simultaneamente, algo materialmente impossível.
Um dos pontos mais sensíveis do relatório envolve o médico Charles Cerezo, cunhado da prefeita e também apontado como maior doador individual de sua campanha. Segundo a CPI, há divergências significativas entre os valores declarados e os registros oficiais do Portal da Transparência — o que levanta suspeitas de pagamentos inflados e possíveis desvios.
O caso ganha contornos ainda mais graves quando analisado à luz da realidade do município. De acordo com a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, Japeri ocupa posições críticas nos rankings de desenvolvimento, especialmente na área da saúde.
Ou seja: enquanto milhões de reais eram movimentados em contratos sob suspeita, a população seguia enfrentando dificuldades para conseguir consultas, exames e atendimentos básicos. O relatório é direto ao afirmar que o impacto foi concreto — serviços deixaram de ser prestados, e a conta, mais uma vez, caiu no colo do cidadão.
Outro ponto alarmante destacado pela CPI envolve possíveis tentativas de interferência nas investigações. O relatório menciona relatos de pressão sobre vereadores e orientação para que servidores não colaborassem com a apuração.
Se confirmadas, essas práticas não apenas agravam o cenário, como indicam uma tentativa deliberada de impedir que os fatos viessem à tona — algo que, por si só, já levanta questionamentos sobre a condução da gestão municipal.
Diante do que foi apurado, a comissão recomendou medidas duras:
- Cassação do mandato ou afastamento das funções da prefeita Fernanda Ontiveros
- Rescisão imediata do contrato com o Cempes
- Devolução dos valores considerados desviados
- Encaminhamento do caso ao Ministério Público e ao Tribunal de Contas
Agora, caberá aos órgãos competentes aprofundar as investigações e decidir se as suspeitas se transformarão em ações judiciais.
A Prefeitura de Japeri nega qualquer irregularidade e afirma que a CPI teve motivação política, além de questionar a legalidade do relatório. Já o Cempes declarou não ter tido acesso ao documento, mas sustenta que atua dentro da legalidade.
A prefeita Fernanda Ontiveros, vale lembrar, já havia sido alvo de uma operação do Ministério Público do Rio de Janeiro em conjunto com a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro em 2024, que investigava suspeitas de fraudes em licitações. Na ocasião, foram cumpridos diversos mandados de busca e apreensão — o que reforça a recorrência de questionamentos sobre a gestão.
QUANDO O ESCÂNDALO DEIXA DE SER SURPRESA
O caso de Japeri não é apenas mais um episódio isolado. Ele expõe um problema estrutural: a fragilidade na fiscalização de contratos públicos e a repetição de práticas que, frequentemente, só vêm à tona após prejuízos milionários.
Mais do que discutir culpados, o momento exige reflexão: quantos outros contratos semelhantes seguem operando sem o devido controle? E, principalmente, até quando a população continuará pagando o preço de uma gestão que, ao invés de cuidar, é constantemente colocada sob suspeita?
A prefeita já tinha sido alvo de uma operação do Ministério Público do Rio de Janeiro em conjunto com Polícia Civil em 2024, na época, Fernanda Ontiveros acabou se tornando o principal alvo da ação que cumpria 11 mandados de busca e apreensão contra suspeitos de cometerem fraudes em licitações. na prefeitura de Japeri.
