A direita brasileira protagoniza mais um capítulo de sua incapacidade crônica de pensar estrategicamente. Ao retirar Michelle Bolsonaro da disputa presidencial e impor o nome do filho Flávio Bolsonaro, Jair Bolsonaro não apenas criou um racha interno como jogou fora uma oportunidade real de voltar ao jogo com chances concretas de vitória.
Nos bastidores do PL, o gesto foi lido como aquilo que de fato é: nepotismo político disfarçado de estratégia, somado a um machismo estrutural que insiste em tratar lideranças femininas como peças decorativas, nunca como protagonistas.
Michelle, que vinha sendo trabalhada como um dos nomes mais competitivos do campo conservador — com forte apelo popular, bom trânsito entre evangélicos e rejeição muito menor do que a do próprio marido — foi simplesmente empurrada para o canto do ringue. Segundo relatos que circulam no partido, o desabafo foi direto e simbólico: teria de “se contentar com o Senado”.
A frase correu como rastilho de pólvora e virou o retrato de um movimento político pequeno, míope e autodestrutivo.

Crise interna e ressentimento exposto
O incômodo de Michelle deixou de ser apenas rumor e passou a se manifestar em gestos claros. Logo após a definição em favor de Flávio, ela anunciou seu afastamento da liderança do PL Mulher, decisão que aliados tentaram vender como algo pessoal, mas que ninguém nos corredores do partido comprou.
A leitura interna é cristalina: trata-se de disputa de poder no núcleo duro do bolsonarismo, onde decisões seguem concentradas em um círculo fechado, masculino e familiar — mesmo quando os números, o clima político e a lógica eleitoral apontam em outra direção.
Fontes relatam que, em conversas recentes envolvendo Jair Bolsonaro, Michelle teria reclamado abertamente de estar fora das decisões centrais, sem sequer ser consultada sobre os rumos do projeto político que ela mesma ajudou a sustentar nos últimos anos.

Quando Michelle mostrou força — e foi punida por isso
O mais revelador é que Michelle estava em seu melhor momento político. Pouco antes de ser descartada, mostrou musculatura ao interferir diretamente no palanque do Ceará, forçando o partido a recuar de acordos que beneficiavam Ciro Gomes. A manobra, bem-sucedida, contrariou interesses de Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro — e expôs um incômodo que não foi perdoado.
Eduardo, inclusive, reagiu publicamente, reclamando em vídeo nas redes. O recado interno foi claro: Michelle passou do ponto permitido.
Na lógica do bolsonarismo, mulher pode mobilizar base, puxar voto e fazer discurso — mas não pode ameaçar o controle do clã.
Um erro que pode custar caro
Ao sacrificar Michelle, a direita não feriu apenas uma liderança. Feriu a si mesma. Perdeu a chance de renovar discurso, reduzir rejeição, dialogar com setores fora da bolha e apresentar um nome competitivo contra a esquerda.
Preferiu insistir no projeto familiar, fechado, previsível e desgastado.
No fim das contas, o episódio deixa uma pergunta incômoda:
👉 A direita quer vencer eleições ou apenas preservar sobrenomes?
Por enquanto, a resposta parece clara — e Michelle Bolsonaro é a maior prova disso.
