
Em um raro momento de lucidez no debate interno da direita, o deputado federal Nikolas Ferreira fez o que muitos evitam por conveniência ou medo de represálias ou por idolatrar Bolsonaro: disse o óbvio. Jair Bolsonaro é, sim, o maior líder da direita brasileira contemporânea — mas isso não lhe concede imunidade a críticas, nem o direito de transformar o movimento conservador em um projeto de sucessão familiar.
Ao afirmar que não precisa concordar com Bolsonaro em 100% do tempo para continuar sendo de direita, Nikolas toca numa ferida que parte do bolsonarismo prefere ignorar: a idolatria cega. Essa postura, longe de fortalecer o campo conservador, o enfraquece, afasta aliados, impede a renovação e cria um ambiente tóxico onde qualquer divergência vira “traição”.

Nikolas foi claro ao rejeitar o messianismo político — tanto em relação a Bolsonaro quanto a si próprio. Ao lembrar que não existe salvador da pátria na política, ele desmonta a lógica perigosa que transforma líderes em figuras intocáveis e eleitores em seguidores acríticos. Política exige responsabilidade, não devoção.
O ponto mais sensível, porém, está na questão eleitoral. Ao declarar apoio a Flávio Bolsonaro “por hierarquia”, mas admitir que outra opção poderia ser mais viável, Nikolas verbaliza o que muitos nos bastidores já reconhecem: a insistência de Jair Bolsonaro em empurrar o próprio filho como escolha natural não é estratégia — é obstinação.
A direita brasileira precisa ganhar eleições, formar maioria, ocupar espaços e governar. Isso não se faz fechando o jogo em torno de sobrenomes, muito menos impedindo que novos quadros competitivos surjam. Quando Bolsonaro age como dono do movimento, ele repete exatamente o vício que sempre criticou na velha política: o personalismo.
Ser de direita não é ser submisso. Não é calar diante de erros evidentes. Não é aceitar que um projeto político nacional seja reduzido a uma lógica de família. A fala de Nikolas Ferreira não é um ataque a Bolsonaro — é um alerta à direita.
Se o movimento quiser sobreviver, crescer e voltar ao poder, precisará escolher maturidade em vez de idolatria, estratégia em vez de teimosia, e projeto de país em vez de herança política.
A direita não precisa de um rei. Precisa de líderes — e de coragem para dizer “não” quando necessário.
