A renúncia de Carlos Bolsonaro ao mandato de vereador do Rio de Janeiro, agora oficializada no Diário Oficial da Câmara, não é um gesto de grandeza política — é a confirmação explícita de um projeto pessoal travestido de missão, que despreza eleitores, atropela lideranças locais e aprofunda o racha na própria direita.
Eleito e reeleito sucessivas vezes pelo Rio, Carlos decidiu virar as costas à cidade que o sustentou politicamente por mais de duas décadas para tentar uma vaga no Senado por Santa Catarina, estado onde não construiu trajetória, base social nem compromisso histórico. O discurso da “missão maior” não convence: o movimento é puro cálculo eleitoral.

Ao sair, Carlos deixa a vaga para uma suplente e tenta normalizar o que não é normal: o uso de mandatos como trampolim familiar, sem qualquer constrangimento com o eleitor que acreditou estar elegendo um representante para defender os interesses do Rio.
A política do sobrenome acima do projeto
O episódio expõe um problema antigo do bolsonarismo: o personalismo absoluto, em que decisões não passam por debate, estratégia coletiva ou leitura de cenário — passam pelo sobrenome. A direita, que cobra coerência, ética e compromisso, assiste calada a mais um caso de parlamentarismo de conveniência.
A pré-candidatura de Carlos ao Senado por Santa Catarina implodiu acordos, colocou o PL em rota de colisão com aliados e ameaçou nomes competitivos do próprio campo conservador, como Caroline de Toni e Esperidião Amin. Não por mérito político, mas por imposição de cima para baixo.
O resultado foi previsível: troca de farpas públicas, constrangimento entre lideranças, desgaste desnecessário e a sensação de que a direita não aprende com seus próprios erros.
Santa Catarina não é quintal político
A tentativa de transformar Santa Catarina em alternativa eleitoral de última hora ofende a inteligência do eleitor catarinense. Estado politicamente maduro, com quadros próprios e tradição de protagonismo, não pode ser tratado como refúgio estratégico de quem abandona o mandato onde foi eleito.
O argumento de que “as convenções decidirão” é formalmente correto, mas politicamente raso. O estrago já está feito: o partido entra em 2026 dividido, com lideranças se atacando em público e uma base confusa sobre quem, afinal, representa seus valores.

A direita precisa decidir o que quer ser
Ou a direita brasileira amadurece, abandona a lógica do clã, valoriza quadros locais e respeita o eleitor —
ou seguirá repetindo o mesmo roteiro: imposição, racha, desgaste e derrota.
A renúncia de Carlos Bolsonaro não é apenas um ato administrativo. É um símbolo de como o projeto político foi capturado por interesses familiares, mesmo quando isso custa capital político, unidade partidária e credibilidade.
No fim, fica a pergunta que a direita evita responder:
👉 o projeto é vencer para o Brasil ou apenas garantir espaço para os mesmos sobrenomes de sempre?
O eleitor está olhando. E anotando.
