A sucessão de episódios envolvendo Eduardo Bolsonaro revela menos um caso de perseguição institucional e mais um processo acelerado de isolamento político, jurídico e internacional. Cassado por excesso de faltas, sem mandato, com o passaporte diplomático cancelado e agora sob questionamentos quanto à sua permanência nos Estados Unidos, o ex-deputado parece enfrentar as consequências diretas de escolhas políticas e pessoais feitas ao longo dos últimos meses.
Toda essa sucessão de episódios escancara um cenário cada vez mais preocupante no funcionamento das instituições brasileiras. Independentemente de concordâncias políticas, o caso expõe um ambiente de insegurança jurídica, concentração de poder e fragilidade do equilíbrio entre os Poderes da República.
No Brasil, a perda do mandato ocorreu por critério objetivo previsto no regimento da Câmara dos Deputados. O afastamento prolongado do país e o acúmulo de faltas tornaram a cassação um desfecho previsível. Ainda assim, Eduardo Bolsonaro optou por transformar o episódio em discurso político, apontando suposta interferência do Supremo Tribunal Federal e fazendo acusações graves, até agora sem provas, contra o ministro Alexandre de Moraes.
O cancelamento do passaporte diplomático, consequência automática da perda do cargo, foi tratado pelo ex-parlamentar como tentativa de cerceamento de direitos. No entanto, o próprio Itamaraty esclareceu que não há impedimento para seu retorno ao Brasil, bastando a solicitação de autorização consular. Ou seja, não se trata de exílio forçado, mas de perda de privilégios inerentes ao cargo que ele já não ocupa.
Enquanto isso, no exterior, a situação também se mostra instável. Informações de bastidores indicam que Eduardo Bolsonaro pode enfrentar dificuldades para manter sua permanência nos Estados Unidos, especialmente diante de uma possível mudança de postura do governo Donald Trump em relação a estrangeiros envolvidos em disputas políticas de outros países. Embora não haja confirmação oficial de um processo de expulsão, o simples fato de a possibilidade circular já enfraquece a narrativa de segurança e acolhimento internacional que o ex-deputado tenta sustentar.
Diante desse cenário, Eduardo passou a alternar versões. Em um momento, isenta o presidente da Câmara, Hugo Motta, de responsabilidade pela cassação; em outro, o acusa de agir por conveniência política. Critica o próprio partido, questiona decisões administrativas e tenta atribuir todos os desfechos a uma conspiração institucional, sem apresentar elementos concretos que sustentem tais alegações.
O que se observa, na prática, é um esvaziamento político progressivo. Sem mandato, sem função institucional, com credibilidade fragilizada e agora diante de incertezas até mesmo fora do país, Eduardo Bolsonaro enfrenta um cenário que vai além do embate ideológico: trata-se de responsabilidade política e das consequências de abandonar o exercício do cargo para investir em confrontos retóricos e disputas simbólicas.
A tentativa de transformar decisões legais e administrativas em provas de perseguição pode mobilizar militância, mas não altera os fatos. Democracias exigem instituições fortes, mas também representantes comprometidos com suas funções. Quando esse compromisso se rompe, o discurso de vítima passa a soar menos como denúncia e mais como estratégia para ocultar erros próprios.
O caso Eduardo Bolsonaro é menos um ataque às instituições e mais um retrato do custo político de se afastar da realidade institucional, apostando exclusivamente na radicalização e na narrativa de confronto permanente.
