A mais recente manifestação de Rogéria Bolsonaro não foi apenas um gesto de apoio materno — foi um movimento calculado dentro de uma disputa de poder cada vez mais explícita no entorno de Jair Bolsonaro. A ex-mulher do ex-presidente entrou no conflito de forma direta, defendendo seus três filhos e reforçando, de maneira inequívoca, a autoridade política de Bolsonaro em meio ao crescente antagonismo com Michelle.
Em publicação nas redes sociais, Rogéria elogiou a postura de Flávio, Carlos e Eduardo, justamente no momento em que os três atacavam publicamente declarações de Michelle. A mensagem, embora sem citar o nome da ex-primeira-dama, foi interpretada como um recado duro à atual influência dela no PL. “Temos um líder — e ele é Jair Bolsonaro”, escreveu Rogéria, frase que soou menos como homenagem e mais como delimitação de território.

A faísca: Michelle confronta articulação aprovada pelo próprio Bolsonaro
O pivô da crise foi a crítica de Michelle a uma possível aliança do PL com Ciro Gomes no Ceará — um movimento político que havia sido autorizado pelo próprio ex-presidente. Ao classificá-la como “autoritária” e “constrangedora”, Flávio expôs uma fratura que há meses se tentava esconder: a disputa pela centralidade estratégica no bolsonarismo.
A resposta dos irmãos veio em bloco, como se já estivessem preparados para o embate. Carlos reforçou a fala do senador com uma frase carregada de subtexto: “Temos que estar unidos e respeitando a liderança do meu pai, sem deixar nos levar por outras forças!”. “Outras forças”, no caso, foi entendido por aliados como referência direta a Michelle.
A engrenagem interna que o público não vê
A movimentação familiar reacende uma questão que circula nos bastidores do PL: quem realmente conduz as decisões políticas do bolsonarismo? A ala ligada aos filhos defende que Jair Bolsonaro continua sendo a voz final — mesmo preso. Já aliados próximos de Michelle afirmam que ela ocupa um papel crescente, especialmente por controlar a interlocução com o partido e com grupos religiosos.
Rogéria, ao apoiar publicamente os filhos, reforça uma versão que esvazia o protagonismo de Michelle justamente no momento em que esta tenta consolidar maior influência no partido.
Recuo estratégico — ou tentativa de apagar incêndio?
Apesar da escalada, Flávio tentou contornar a crise após visitar o pai na Superintendência da Polícia Federal. Em seguida, anunciou uma reconciliação com Michelle. “Pedi desculpas, ela pediu também”, afirmou, defendendo a criação de uma rotina de decisões conjuntas no PL.

A fala, porém, não dissipou dúvidas. A intervenção de Rogéria — rara, direta e politicamente carregada — deixa evidente que a disputa interna não foi resolvida, apenas empurrada para dentro das paredes do partido.
Um conflito que deixa rastros
A crise do momento envolve muito mais do que uma discordância sobre alianças regionais: revela a tentativa de redesenhar o eixo de poder dentro do bolsonarismo em um momento em que o ex-presidente está impossibilitado de atuar plenamente.
Enquanto Michelle avança para ocupar espaço institucional, Rogéria e os filhos dão sinais de que não pretendem ceder terreno — e estão dispostos a expor o conflito quando necessário.
O bolsonarismo, que sempre se apoiou na narrativa de unidade e disciplina interna, agora enfrenta sua disputa mais explícita. E, embora as partes tentem suavizar o impacto, o episódio deixa claro que a guerra por controle político está longe de terminar.
