A direita brasileira voltou a confundir princípio com conveniência. Ao entrar na polêmica entre Zezé Di Camargo e o SBT, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) resolveu transformar um episódio de televisão em batalha ideológica seletiva, carregada de discurso moral — e vazia de coerência política.
Em declaração pública, Flávio classificou como “grande decepção” a presença do presidente Lula e do ministro Alexandre de Moraes no evento de lançamento do SBT News, acusando a emissora de se afastar dos “valores da TV da família brasileira”. O problema é que o discurso soa menos como defesa de valores e mais como uso oportunista de uma crise midiática.
Afinal, se a questão fosse princípio, a crítica seria ampla, consistente e permanente. Mas não é. É pontual, seletiva e conveniente.

Moral seletiva e palanque improvisado
Ao sair em defesa de Zezé Di Camargo — que pediu o cancelamento de seu especial de Natal — Flávio elevou o cantor à condição de “referência moral”, como se divergência política fosse sinônimo de virtude cívica. A leitura é rasa e perigosa: transforma opinião pessoal em selo de caráter e empobrece o debate público.
Mais grave: o senador acusou o SBT de oferecer “palanque desnecessário” a autoridades que, segundo ele, “enfraqueceram os pilares da democracia”. É uma crítica pesada — mas curiosamente desconectada de autocrítica. A mesma direita que reclama de palanque institucional é a que, há anos, usa emissoras, igrejas e eventos culturais como trincheiras políticas permanentes.
Silvio Santos como escudo retórico
Flávio ainda recorreu ao expediente clássico: invocar Silvio Santos. Disse que, se o fundador estivesse vivo, a situação não teria ocorrido, associando sua memória a valores conservadores. É um recurso emocional eficaz, mas intelectualmente frágil. Silvio foi empresário, não cabo eleitoral, e sempre conduziu o SBT com pragmatismo comercial, diálogo amplo e foco em audiência — não com alinhamento ideológico rígido.
Usar sua imagem como escudo moral é reescrever a história para atender a uma narrativa política momentânea.
A contradição final: crítica de dia, programa à noite
O ponto que desmonta o discurso veio logo depois. Apesar de atacar a emissora publicamente, Flávio confirmou presença no “Programa do Ratinho”, no próprio SBT, na mesma noite. A cena é simbólica: critica-se o sistema pela manhã e usufrui-se dele no horário nobre.
Não é coerência. É cálculo.
Quando a direita prefere o barulho ao projeto
O episódio revela um problema maior: a direita tem trocado estratégia por reação, projeto por lacração, construção política por guerra cultural episódica. Em vez de ampliar diálogo, fortalecer ideias e disputar o centro do debate público, parte de suas lideranças prefere incendiar polêmicas midiáticas para manter a base mobilizada.
No fim, todos perdem — inclusive a própria direita, que segue refém de narrativas curtas, incapaz de sustentar discurso firme sem cair em contradição pública horas depois.
Fica a pergunta inevitável:
👉 é defesa de valores ou apenas mais um capítulo do teatro político?
O público percebe.
E a credibilidade cobra a conta.
