A manifestação organizada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), realizada neste domingo em Brasília, reuniu cerca de 18 mil pessoas, segundo estimativa do Monitor do Debate Político da USP em parceria com a ONG More in Common. Mesmo com margem de erro de 12%, o levantamento confirma um dado politicamente relevante: há uma parcela significativa da população disposta a ir às ruas para expressar insatisfação com o atual governo federal.
Batizado de “Caminhada pela Paz” e integrado ao movimento “Acorda, Brasil”, o ato foi precedido por uma caminhada simbólica de apoiadores que saíram de Paracatu (MG) rumo à capital. Mais do que o número absoluto de participantes, o evento evidencia a reorganização de setores da oposição em torno de pautas como responsabilidade institucional, crítica ao governo Lula e pedidos explícitos de impeachment — demandas que, goste-se ou não, fazem parte do jogo democrático.
O ato contou com carro de som e discursos, além de faixas e coros críticos ao presidente da República, algo recorrente em manifestações políticas e que reforça o caráter legítimo da liberdade de expressão. Ainda assim, parte da cobertura tende a minimizar esse tipo de mobilização, sobretudo quando não se alinha ao campo ideológico dominante em universidades e grandes veículos de imprensa.
Um episódio grave marcou o evento: um raio atingiu a área da manifestação, deixando dezenas de feridos. Segundo o Corpo de Bombeiros, 89 pessoas foram socorridas, 47 hospitalizadas e 11 necessitaram de cuidados médicos mais intensivos. O incidente, embora climático e fortuito, expôs a necessidade de maior planejamento e protocolos de segurança em atos públicos — uma responsabilidade que deve ser compartilhada entre organizadores e poder público.
A contagem dos manifestantes foi realizada por meio de imagens aéreas analisadas por software de inteligência artificial, metodologia cada vez mais usada, mas que também levanta questionamentos sobre critérios, interpretações e o tratamento desigual dado a atos de diferentes espectros políticos. Quando manifestações governistas reúnem números semelhantes, o discurso costuma ser outro.
No fim, o ato liderado por Nikolas Ferreira sinaliza que a insatisfação popular não está restrita às redes sociais. Ignorar ou desqualificar esse movimento é um erro político. Em uma democracia madura, manifestações pacíficas — inclusive as críticas ao governo — deveriam ser vistas não como ameaça, mas como termômetro legítimo da sociedade.
