BRASÍLIA — Às 15h deste domingo (23), sob um céu pesado típico do fim da tarde brasiliense, Michelle Bolsonaro atravessou a entrada principal da Superintendência da Polícia Federal. Sua visita ao marido, o ex-presidente Jair Bolsonaro, ocorreu dentro de uma janela de apenas duas horas, rigidamente delimitada pelo ministro Alexandre de Moraes, em um momento em que tensões políticas voltam a se acumular sobre a capital.
A ex-primeira-dama desceu do carro sem declarações, mantendo o mesmo silêncio calculado que tem marcado suas aparições desde a prisão preventiva do marido. Ainda assim, acenou para cerca de 30 apoiadores — muitos deles ali desde sábado — que ergueram bandeiras e celulares no esforço de registrar sua passagem. O gesto foi breve, mas suficiente para provocar uma onda de aplausos e murmúrios emocionados.
A visita terminou às 16h54, quando Michelle deixou o prédio acompanhada por seguranças e novamente ignorou as perguntas dos jornalistas. O veículo foi seguido por simpatizantes que se aproximaram, num movimento que misturava solidariedade e ansiedade diante das incertezas que cercam o caso.
No entorno da superintendência, o ambiente é de vigília contínua. Alguns manifestantes se abrigam em tendas improvisadas, outros permanecem em pé, observando a movimentação policial e jurídica com atenção silenciosa. O que para muitos é mais um desdobramento de um processo legal se transformou, para os apoiadores do ex-presidente, em um símbolo de disputa entre instituições e liderança política.
Bolsonaro está detido em uma sala especial, após a determinação de Moraes que revogou sua prisão domiciliar. A decisão se baseou, entre outros elementos, na tentativa do ex-presidente de violar a tornozeleira eletrônica, episódio por ele admitido. O fato reacendeu debates sobre o alcance e o rigor das medidas judiciais impostas e ampliou o ressentimento entre setores que o consideram alvo de perseguição.
Enquanto isso, Brasília observa. Cada deslocamento, cada documento, cada gesto público — até mesmo um simples aceno — ganha dimensões que transcendem o episódio imediato, alimentando discussões mais amplas sobre poder, instituições e futuro político no país.
