Nosso site utiliza cookies para melhorar e personalizar sua experiência e para exibir anúncios (se houver). Nosso site também pode incluir cookies de terceiros, como Google Adsense, Google Analytics e YouTube. Ao utilizar o site, você concorda com o uso de cookies. Atualizamos nossa Política de Privacidade. Clique no botão para consultar nossa Política de Privacidade.

Michelle emerge como fator de tensão na sucessão bolsonarista

Ela reabriu, com força, a disputa silenciosa pela condução do bolsonarismo no cenário pós-Bolsonaro

A movimentação recente de Michelle Bolsonaro nos bastidores do Supremo Tribunal Federal (STF), em defesa do pedido de prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, fez mais do que reacender o debate jurídico sobre a situação do ex-presidente. Ela reabriu, com força, a disputa silenciosa pela condução do bolsonarismo no cenário pós-Bolsonaro — e expôs o desconforto crescente dos filhos diante do protagonismo da ex-primeira-dama.

Interlocutores próximos ao núcleo político do ex-presidente avaliam que Michelle passou a operar em uma chave distinta da adotada pelos filhos. Ao ampliar o diálogo institucional com ministros do STF, como Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, ela não apenas buscou melhores condições para Bolsonaro, mas se colocou como uma ponte política funcional entre o bolsonarismo e o sistema institucional — algo que historicamente sempre gerou resistência no clã familiar.

Esse movimento ganhou peso após a transferência de Bolsonaro para a Papudinha. No mesmo período, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, cancelou uma visita ao ex-presidente, enquanto Michelle intensificava articulações discretas em Brasília. Para aliados dos filhos, o gesto foi interpretado como tentativa de consolidação de Michelle como uma espécie de “porta-voz institucional” do bolsonarismo, papel que desloca o centro de gravidade da liderança familiar.

A estratégia, segundo pessoas próximas à ex-primeira-dama, é gradual e calculada: primeiro, garantir melhorias nas condições prisionais; em seguida, sustentar juridicamente a prisão domiciliar com base em laudos médicos. Um novo pedido já está sob análise do ministro Alexandre de Moraes, que aguarda informações da Polícia Federal. Mas, nos bastidores, poucos acreditam que a articulação seja apenas humanitária.

Entre aliados dos filhos, cresce a leitura de que a eventual volta de Bolsonaro ao convívio doméstico ampliaria significativamente a influência política de Michelle, reposicionando-a como figura central na reorganização do campo da direita para 2026. Nesse cenário, a ex-primeira-dama não apenas neutralizaria a ideia de sucessão automática, como abriria espaço para alternativas consideradas mais competitivas eleitoralmente — com destaque para Tarcísio de Freitas.

A possibilidade de uma chapa encabeçada pelo governador paulista, com Michelle como vice, passou a circular com mais intensidade justamente no momento em que Tarcísio buscou reduzir sua exposição ao conflito familiar. Embora tenha reiterado publicamente que disputará a reeleição em São Paulo, aliados avaliam que o governador trabalha para ganhar tempo, evitar desgaste precoce e não se tornar peça central de uma disputa que ainda está em ebulição.

O incômodo mais explícito com as articulações de Michelle veio de Carlos Bolsonaro. Em publicações nas redes sociais, o ex-vereador fez referências a movimentações “dissimuladas” e a tentativas de medir forças internas, mensagens interpretadas por aliados como recados indiretos à madrasta. A assessoria negou o alvo, mas o mal-estar se aprofundou quando os filhos souberam, apenas depois de realizada, da audiência de Michelle com Alexandre de Moraes, intermediada pelo deputado Altineu Côrtes.

A tensão, no entanto, não é nova. Em dezembro, Bolsonaro divulgou uma carta manuscrita apontando Flávio Bolsonaro como pré-candidato, movimento visto como tentativa de cristalizar internamente uma sucessão baseada na herança familiar. Flávio sustenta essa posição como legítima, amparado pelo gesto do pai.

Michelle, por sua vez, evita o confronto direto. Publicamente, adota discurso conciliador e reforça respeito às decisões de Bolsonaro. Nos bastidores, porém, aliados avaliam que ela representa hoje um ativo político distinto: com maior apelo eleitoral junto ao eleitorado feminino, capacidade de diálogo institucional e menor rejeição fora do núcleo ideológico duro.

O que se desenha, portanto, é uma encruzilhada estratégica para a direita: de um lado, a sucessão por linhagem, centrada em Flávio; de outro, uma reorganização mais ampla, com Tarcísio e Michelle como alternativa capaz de dialogar com o Centrão e setores moderados. O receio dos filhos não é apenas perder espaço, mas ver o bolsonarismo deixar de ser um projeto familiar para se tornar, de fato, um projeto político mais amplo.

By Luciana Vieira

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You May Also Like