Ao divulgar nas redes sociais uma imagem de Nicolás Maduro vendado, supostamente sob custódia americana, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ultrapassou mais um limite na já controversa condução de sua política externa. A publicação, feita neste sábado (3), ocorreu após Trump afirmar que forças americanas realizaram ataques em território venezuelano e capturaram o presidente do país vizinho — uma alegação de enorme gravidade, ainda cercada por lacunas, ausência de verificação independente e questionamentos legais.
Mais do que um registro informativo, a foto funciona como um gesto calculado de intimidação política e propaganda de força, algo que remete diretamente a práticas de intervenções militares do século passado. Não se trata apenas da Venezuela: trata-se da mensagem enviada ao mundo de que os Estados Unidos se reservam o direito de capturar chefes de Estado estrangeiros, divulgar imagens humilhantes e decidir unilateralmente o destino de nações soberanas.

Segundo o próprio Trump, a ação teria envolvido bombardeios em Caracas e outras regiões do país. O governo venezuelano, por sua vez, falou em ataques que atingiram áreas civis e anunciou mobilização defensiva. Até o momento, não há dados consolidados sobre vítimas, o que amplia a preocupação internacional diante do risco de uma escalada militar sem controle.
Reações globais: condenação, alerta e silêncio estratégico
A resposta internacional foi rápida — e, em muitos casos, dura. Governos da América Latina manifestaram preocupação com a violação da soberania venezuelana e alertaram para o risco de desestabilização regional. Em fóruns diplomáticos, o tom predominante foi de repúdio à ação unilateral e de cobrança por explicações formais junto a organismos multilaterais.
Na Europa, líderes e representantes da União Europeia adotaram discurso cauteloso, mas deixaram claro que qualquer mudança de regime imposta pela força fere princípios básicos do direito internacional. Já organismos como a ONU foram pressionados a se posicionar diante de um cenário que, se confirmado, representa um dos episódios mais graves de intervenção direta das últimas décadas.
O silêncio estratégico de algumas potências, como Rússia e China, também chama atenção. Ambas mantêm interesses econômicos e geopolíticos na Venezuela e observam o movimento americano como um precedente perigoso, capaz de legitimar ações semelhantes em outras regiões do mundo.
Panamá, Iraque, Líbia: a história que insiste em se repetir
A cena evocada pela imagem de Maduro vendado traz lembranças inevitáveis. Em 1989, os Estados Unidos invadiram o Panamá para capturar Manuel Noriega, também exibido como troféu político. No Iraque, em 2003, a invasão baseada em justificativas posteriormente desacreditadas levou à prisão de Saddam Hussein — e mergulhou o país em décadas de instabilidade, violência e fragmentação institucional.
Mais recentemente, a Líbia mostrou como a derrubada de um regime pela força externa pode destruir qualquer perspectiva de reconstrução nacional. Em todos esses casos, a promessa de “libertação” deu lugar ao caos prolongado.
A comparação não é retórica: intervenções desse tipo raramente produzem democracia, mas quase sempre deixam rastros de instabilidade, radicalização e sofrimento civil.

Espetáculo político e poder sem freios
Ao publicar a imagem, Trump não apenas informou — espetacularizou. Transformou uma operação militar em conteúdo de rede social, reforçando uma lógica de poder que despreza protocolos diplomáticos, tratados internacionais e o próprio equilíbrio entre os Poderes nos Estados Unidos.
O gesto também levanta dúvidas internas: onde está o Congresso americano? Qual a base legal da operação? Quem responde pelas consequências humanitárias e políticas? Até agora, essas perguntas seguem sem resposta.
A Venezuela vive uma crise profunda há anos, marcada por autoritarismo, colapso econômico e sofrimento da população. Mas a substituição de um problema interno por uma intervenção armada externa, decidida e exibida por um único líder, dificilmente aponta para uma solução — e sim para um novo capítulo de instabilidade continental.
No fim, a foto de Maduro vendado não representa apenas a queda de um governante. Ela simboliza o enfraquecimento das regras internacionais e a volta explícita de uma política externa baseada na força bruta, no constrangimento público e na lei do mais forte.
