
Parlamentares do Congresso dos Estados Unidos pressionam formalmente o governo de Donald Trump a adotar medidas e retaliações econômicas contra o Brasil. O motivo? O avanço de propostas legislativas e regulatórias brasileiras voltadas à fiscalização e ao enquadramento das grandes empresas de tecnologia (Big Techs).
O que assistimos não é uma disputa trivial sobre comércio, mas um clássico exercício de geopolítica de proteção corporativa.
O jogo do lobby: Diante da iminência de perderem a hegemonia de regras frouxas no Brasil — com debates que vão da regulação de concorrência à responsabilização por conteúdos —, as multinacionais do Vale do Silício acionaram seus braços políticos em Washington.
A instrumentalização da diplomacia: Em vez de debater a legislação nos fóruns adequados e no Congresso brasileiro, utiliza-se a ameaça de sanções comerciais e tarifas da Casa Branca como ferramenta de coerção. Trata-se de uma estratégia para desestimular que países emergentes criem parâmetros próprios para o ecossistema digital.
A narrativa vinda de Washington tenta vestir a defesa de interesses bilionários com a roupa do “livre comércio” e da “liberdade de expressão”.
A contradição é evidente: enquanto os EUA e a União Europeia debatem e impõem limites rígidos ao poder concorrencial e aos algoritmos dessas mesmas corporações, qualquer tentativa de um país do Sul Global de exercer sua soberania digital é carimbada como hostilidade comercial. Aceitar a premissa de que o Brasil não pode legislar sobre o ecossistema digital sob ameaça de retaliação é aceitar um status de vassalagem tecnológica.
A disputa em Brasília e Washington não é teórica; ela bate diretamente no cotidiano do cidadão brasileiro:
Segurança e Direitos Digitais: Sem regulação, a população fica desprotegida diante da desinformação em massa, de golpes financeiros e da exploração desregrada de dados pessoais.
Economia e Emprego: Se o país ceder às ameaças e sofrer sanções econômicas ou tarifas em outros setores (como exportação), quem paga a conta é a produção nacional e o trabalhador. Por outro lado, ceder ao monopólio das Big Techs sufoca a inovação local e impede o desenvolvimento de um mercado de tecnologia autônomo. A regulação de mercados estratégicos é prerrogativa de qualquer nação soberana. O debate sobre como regular o ambiente digital deve ser feito pela sociedade brasileira e seus representantes eleitos — e não sob tutela ou chantagem de interesses corporativos estrangeiros.

